Publicidade na São Judas: vale a pena?

Quer cursar faculdade de Publicidade e Propaganda? Saiba por que eu não recomendo o curso de Publicidade na São Judas Tadeu.

Vez ou outra me perguntam qual faculdade/universidade eu recomendo. Minha resposta é sempre a mesma: Eu ainda não concluí um curso superior, então não posso recomendar. Aliás, cursei Escola Panamericana de Arte e Design – fiz Design de Publicidade, mas não foi graduação. Tanto que, depois que eu saí da Panamericana, após algumas indicações e pesquisas fui fazer Publicidade na São Judas. E a grande verdade é que eu não sei como consegui ficar um ano inteiro por lá.

Normalmente prefiro postar elogios no blog. Gosto de indicar bons cursos, serviços e afins para quem passa por aqui. Porém, quando eu fui estudar na Universidade São Judas Tadeu, estava confiante de que seria um grande curso, uma grande escola. E a cada vez que eu comento com alguém que eu fiquei terrivelmente decepcionado durante esse ano que estive por lá, as pessoas ficam surpresas, justamente porque essa é uma universidade bem falada, com boa publicidade, além de ser cara.

Eu só sei que não há algo de errado comigo porque essas pessoas que se surpreendem quando eu falo mal da São Judas nunca estudaram lá.

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Mas a São Judas é tão ruim assim?

universidade são judas tadeu

Vamos falar sobre Publicidade na São Judas?

Vale ressaltar que eu cursei 1 ano de Publicidade, então é sobre esse curso, e apenas esse – Publicidade na São Judas – que eu vou falar. Talvez a São Judas seja uma boa pedida nos cursos de Direito, Psicologia ou Engenharia, por exemplo – isso eu não sei dizer, mas também não vou generalizar e dizer que a universidade inteira é ruim porque não gostei de um curso. Também não vou ser daqueles ex-alunos que falam mal de uma universidade por terem ido mal “por causa dos professores”, porque eu fechei o ano com boas notas e um único exame (por pura displicência da minha parte).

Mas vamos por partes.

Publicidade na São Judas: introdução

Curiosamente, quando fui para a fila do Vestibular, fiquei sabendo que o PeaShrek também estava lá, com o propósito de fazer o mesmo curso. A gente acabou caindo na mesma sala e fizemos um grande camarada: o Thiago, também conhecido como Paulo (longa história), que continua por lá. Essas duas pessoas poderão confirmar o que direi nesse post, já que comentamos muito a respeito desses assuntos durante o ano inteiro.

Bom, foi tudo ok com o Vestibular (tirando o pedido para levar lápis e caneta, coisa que eu me esqueci e então fui alertado sobre isso quando estava chegando na São Judas; comprei a dupla de lápis e caneta bic mais cara da história na rua da universidade mesmo e, ao entrar no prédio, eles estavam distribuindo isso), e então depois do resultado ficamos sabendo quais matérias teríamos durante o ano (9 matérias).

No primeiro dia de aula rolou um trote tranquilo (pelo menos eu saí ileso), e durante as primeiras semanas estávamos em pouco mais de 100 alunos em uma sala pra 60 (vale ressaltar que não há ar condicionado) até dividirem a turma em 2.

Os problemas reais

dormindo no trabalho

Acorda, atendimento! (foto: Corbis)

Já no decorrer dos primeiros meses começamos a enfrentar os primeiros problemas. Fiz uma lista:

Péssimo atendimento

Durante um ano inteiro, enviei três emails para a universidade. Não recebi resposta. Detalhe é que pessoal do setor de atendimento na São Judas vive dizendo “você também pode resolver isso no site”. Inclusive, foi tentando resolver um problema no site que eu perdi uma bolsa: o tal site dizia para eu fazer um cadastro que eles me avisariam quando fosse para levar os documentos na universidade. Depois de um tempo sem resposta, fui acessar novamente a página e vi que já havia passado a data, que eu desconhecia. Fui até a universidade conversar no departamento de bolsas e, com uma risada de canto de boca, a gerente (ou alguma hierarquia semelhante) do departamento disse: “não posso fazer nada”. Eles simplesmente não admitiram o erro, e apesar da boa vontade do coordenador do curso ele também nada pode fazer (o que é compreensível, mas dessa vez ao menos sem a risadinha).

Um ano depois, quando fui cancelar meu vínculo com a faculdade, contei o ocorrido, com detalhes (o que aconteceu daria um post enorme, na verdade). O atendente disse que poderia resolver esse problema e me ajudaria com a bolsa. Dessa vez a risadinha foi por minha conta.

Muita gente me disse coisas como “Você foi ingênuo, toda faculdade dificulta quando o assunto é bolsa de estudos!”. Ok, eu fui, mas… até quando a gente vai continuar aceitando que nós somos os errados por não corrermos atrás de algo que já é um direito nosso porque obstáculos são inventados no meio do caminho? Não dá pra simplesmente aceitar isso, como já aceitamos o sofrimento que é cancelar algo pelo telefone, taxas abusivas que pagamos em tudo etc. A gente já é muito ingênuo por ter que passar por muita coisa assim calado. Parece que honestidade tem virado uma qualidade ao invés de obrigação.

Dez professores. Dois (e meio) realmente bons.

Primeiro, devo explicar o “e meio” ali: A São Judas funciona em “regime anual”, ou seja, as matérias não duram um semestre, e sim o ano inteiro. Porém, há uma pausa no meio do ano, é claro. Foi justamente nessa pausa que chegou uma notícia: A professora que dava aula de Introdução à Publicidade e Propaganda havia sido demitida por conta de um suposto abaixo-assinado feito por boa parte dos alunos. Não fiquei surpreso, porque ela não tinha controle nenhum na classe de aula (era uma bagunça absurda – culpa dos alunos, mas também não havia uma aula sequer com conteúdo “decente”) e não me lembro de alguém ter tirado uma nota inferior a 9 em sua matéria (independente da qualidade do trabalho). Ela durou apenas um semestre, e o professor que a substituiu era excelente e tinha muita experiência na área. Foi um semestre perdido, mas ele fez parecer que não perdemos um dia sequer.

estudando

No primeiro semestre, apenas um aluno ficou com nota azul em Filosofia! (foto: Corbis)

De resto, outros dois professores eram muito bons, já o restante era apenas de nível mediano: nada demais, um modo de ensino muito “engessado”. Os trabalhos eram praticamente sempre a mesma coisa (“faça uma campanha publicitária disso”, “faça uma arte daquilo” – nós éramos alunos do primeiro ano, estávamos aprendendo sobre publicidade com uma professora que foi demitida e nem tínhamos aula sobre softwares de design… qual é o sentido?). Aprendi bastante, claro, mas esperava muito mais. E, veja bem, não estou dando a desculpa de que as matérias eram chatas: é claro que eu não gostava de uma ou outra, mas estou analisando aqui o conteúdo e o método de ensino. A mesma professora que citei acima chegou a afirmar para uma sala de aula lotada que quanto mais um site é visitado, melhor sua posição no Google. Um dos professores prejudicou a alguns alunos com erros gramaticais e de concordância em provas, e em uma delas ele não estava presente na sala de aula pra explicar a pergunta da forma correta pra gente. A professora suplente, então, disse o seguinte: “respondam da forma que quiserem”. Felizmente eu já não estava mais na universidade quando isso aconteceu – mas o Thiago sim.

As piores palestras que já assisti

Durante uma semana, duas vezes ao ano, há a Semana da Comunicação ou algo do tipo. Não temos aulas, pois no lugar delas há palestras sobre diversos temas. Escolhi três apresentações: uma sobre Criatividade no Design, outra sobre Marketing Mobile e a última era a apresentação de TCCs de turmas de assessoria de imprensa.

A palestra sobre Criatividade no Design foi, no mínimo, curiosa. Os palestrantes passaram a maior parte do tempo divulgando seus próprios trabalhos e serviços, vangloriando-se de alguns cases. Não houve, digamos, conteúdo. Ficou parecendo que a universidade escolheu algumas pessoas que não cobrariam nada pela apresentação e disseram “faz o que vocês quiserem”.

A segunda palestra, a sobre Marketing Mobile, ainda me deixou dúvidas: não sei se considero aquilo como uma grande piada de mau gosto ou como uma seção de tapas na cara verbais. Primeiramente, imagine uma apresentação bonitinha de power point rolando, até chegar em um ponto com um ranking com os 10 sites mais acessados dos EUA de um lado e o mesmo top 10 para o Brasil, do outro lado. Aí o palestrante começa a falar sobre o Blogger e o WordPress(.com), afirmando que não são ferramentas tão conhecidas no nosso país. Você olha o ranking e vê que eles estão no top 10 dos sites mais acessados do Brasil, em quinto e sétimo respectivamente.

A apresentação seguiu assim durante uma hora inteira, aos tropeços de informações equivocadas (muita gente tentou acessar o “Alexxa” após a apresentação para buscar sobre informações de tráfego de sites e provavelmente poucas descobriram que o nome real era “Alexa”) e apenas uma citação sobre Marketing Mobile: Mensagens de texto. Sim, aqueles SMS que você recebe às 3h da manhã de sua operadora dizendo que você pode baixar os melhores hits em seu celular. Esse foi o único conteúdo de “marketing mobile”.

Ah, no final vem o ápice: Um dos coordenadores da São Judas disseram orgulhosamente que aquele foi um aluno da universidade!

Por fim, a apresentação dos TCCs não foi tão ruim: pelo contrário, foi até bacana. Tirando o atraso por falta de equipamentos da universidade – e depois mais um atraso por conta de falha nos equipamentos da universidade – e a sala com aparentemente 10 pessoas assistindo (porque ninguém aguentava mais esperar e havia alguém falando sobre futebol em outra sala), os alunos sim mostraram empenho.

Tecnologia?

Além de um site com comunicação inútil (que funcionava perfeitamente para nos enviar e-mails de cursos de férias), por muitas vezes eu me sentia no ensino médio por falta de tecnologia básica na sala de aula. Sim, havia conexão wi-fi, mas não chegava até a nossa sala (não chegava em 70% da universidade). Os projetores eram limitados, então dificilmente algum professor poderia fazer alguma apresentação, recorrendo ao velho quadro negro e giz. Também não havia material digital para estudarmos em casa – um professor criou uma apostila em PDF, e foi só. De resto, os professores não tinham um email da universidade em si e nem um meio de comunicação simples com os alunos, então a gente precisou escrever nosso email em um papel para todos os professores até alguém ter a ideia de criar um email só pra sala, o que não deu certo por um bom tempo.

Ah, e parte das provas eram ditadas ou copiadas do quadro negro. Sério.

quadro negro

A prova dura 50 minutos e você perde 15 copiando as questões. (foto: Corbis)

Cuidados

Já fiquei preso no elevador uma vez, por alguns minutos. Alguns colegas ficaram mais vezes, por um tempo superior (não tenho medo de elevador, mas sempre gostei de escadas). A história era sempre a mesma: o elevador trava por um tempo, e depois dá uma arrancada que te dá a sensação de que ele está caindo.

De resto, dá pra contar nos dedos as vezes que eu encontrei sabonete nos banheiros.

Um ano inteiro com as mesmas matérias

Dois pontos que vocês vão ter de concordar comigo: Primeiro que é praticamente impossível ter conteúdo o bastante pra um ano inteiro de uma mesma matéria. É claro, algumas matérias podem ir longe (e vão), mas outras, principalmente pensando que é um curso sobre Publicidade, mal tem conteúdo para um semestre. Tanto que, após o recesso do meio do ano, algumas matérias estavam começando a falar dos mesmos assuntos das outras.

Segundo que é assustador pensar que, se você pegar uma DP, você vai ficar um ano inteiro fazendo aquela matéria de novo.

Calor

Como não há ar condicionado e, pelo menos no início, as salas são cheias, no verão o calor é insuportável. Se você não chega mais cedo e arruma um lugar à janela, a solução é se abanar com a capa do caderno, porque nem os ventiladores dão conta.

Sim, é caro

Eu paguei pouco mais de mil reais mensais, e vendo a lista acima penso que paguei até caro demais. Hoje pago metade disso numa universidade muito superior (fica para um próximo post) em todos esses aspectos.

Costumo citar o curso de publicidade na São Judas como “o quarto ano do ensino médio mais caro que eu poderia ter feito na vida”.

Publicidade e Propaganda: onde fazer?

publicidade na são judas

Clique na imagem e veja a foto hipster que tirei da São Judas.

Ainda não sei dizer. Eu estou bastante satisfeito na Universidade Cruzeiro do Sul, que está muito acima das minhas expectativas, mas vou cursar por mais tempo para ter uma opinião formada. O PeaShrek foi para a Anhembi Morumbi e também se diz bastante satisfeito.

Eu não recomendo o curso de publicidade na São Judas, e agora vocês sabem por quê. Durante todo o post, salvo algumas piadinhas ou ironias, me esforcei para fazer críticas construtivas e ser justo (eu poderia muito bem citar meu problema com a bolsa com maiores detalhes, mas mal dei um parágrafo e meio a isso). Vejo que no Reclame Aqui há outras reclamações: Universidade São Judas Tadeu / Faculdade São Judas Tadeu.

Se você discordou de algo, teve alguma experiência similar ou diferente da minha, sinta-se à vontade para comentar. Também estou aberto a comentários da própria USJT; conheço alguns profissionais que trabalham lá e alguns estudantes também, tenho o maior respeito por eles e gostaria que a universidade fosse tão respeitável quanto. Mas…